Lembranças de São Paulo

Crônicas sobre a cidade de São Paulo

por José Roberto Walker

Cultura FM 103,3, às quartas-feiras: às 9h e 18h 

O Edifício Matarazzo

Sede do que foi o maior grupo industrial brasileiro, hoje abriga a Prefeitura da cidade.

 

O Edifício Matarazzo - Lembranças de São Paulo
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A Prefeitura de São Paulo já teve muitos endereços. Hoje está instalada no belo prédio de mármore travertino da Rua Líbero Badaró, na esquina com o viaduto do Chá. Mas o Gabinete do Prefeito só se mudou para lá em 2004. E antes disso, quem construiu e ocupou aquele prédio?

O local foi talvez o ponto mais movimentado e cobiçado de São Paulo ao longo de todo o século 20. Era praticamente impossível para um paulistano dessa época não passar por ali pelo menos de vez em quando. Nos anos 60, se dizia que muitas centenas de milhares de pessoas cruzavam o viaduto todos os dias e houve quem arriscasse que eram mais de 1 milhão. Mas não é provável que alguém tenha feito de fato essa contagem. A verdade é que era muita gente.

 

Nos anos 10 quando ainda existia o velho viaduto, estreito e com estrutura de ferro, foi construído ali o mais elegante hotel de São Paulo, o Grande Hôtel de La Rotisserie Sportsman, que hospedou Isadora Duncan, Pietro Mascagni, Nijinski e Arthur Rubinstein, entre muitos outros artistas que vieram à São Paulo para se apresentar no Theatro Municipal. O hotel era o principal da cidade, mas entrou em decadência a partir de 1923, quando foi inaugurado o Hotel Esplanada, atrás do Municipal, muito maior e mais moderno. Foi alugado pelo jornalista Assis Chateaubriand que instalou no prédio o Diário da Noite, uma das bases do seu império jornalístico. Porém o ponto era muito cobiçado e  foi comprado por Francisco Matarazzo em 1933 para que se construísse no terreno, a sede das suas indústrias. Chateaubriand, paraibano e briguento, não quis sair e a briga entre os dois durou até a morte do jornalista. Mas o prédio era de Matarazzo, que conseguiu demoli-lo em 1934 para construir o mais luxuoso edifício de São Paulo, projetado por um dos arquitetos favoritos de Mussolini. Tinha 14 andares e 28 mil metros quadrados e foi todo revestido em mármore italiano. A entrada monumental, possuí até hoje as colunas com altos relevos exaltando o trabalho e a indústria.

 

Como em São Paulo nada é eterno e o grupo Matarazzo acabou sendo obrigado a vender a sua sede nos anos 70 e mais tarde definhou até quase desaparecer. O prédio passou por varias mãos até ser finalmente incorporado ao patrimônio da cidade e transformado em sede da Prefeitura. Foi muito bem restaurado e mantém muitas das suas características originais, inclusive um incrível jardim com árvores e mais de 400 espécies vegetais na cobertura.

 

Se você passar por ali, entre para conhecer.

 

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A Igreja de São Gonçalo

Uma igreja do período colonial que hoje serve a comunidade japonesa.

 

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A maioria das velhas igrejas de São Paulo foi tragada pelo progresso da cidade. Masa velha igreja de São Gonçalo permanece firme no mesmo local em que foi criada na segunda metade do século 18 e resistiu bravamente às mudanças ocorridas no seu entorno. Essa velha igreja fazia par com a Igreja dos Remédios que fechava o antigo Largo da Assembleia e que hoje constitui a Praça João Mendes, bem no centro da cidade. A igreja dos Remédios, como a velha Sé, a de São Pedro e a da Misericórdia foi demolida há muito tempo. Mas São Gonçalo continua de pé.

O santo - São Gonçalo Garcia - nasceu na Índia em 1556 e era filho de um português com uma indiana, mestiço portanto e nas suas imagens aparece sempre com os olhos um pouco amendoados e a pele escura. Era frade franciscano e morreu em Nakasaki, no Japão, juntamente com outros mártires cristãos. Nunca foi um santo muito conhecido e só foi canonizado em 1852. Mas a sua confraria existia em São Paulo desde 1727 e a primeira capela, foi construída naquele local com a ajuda de Frei Galvão. A igreja foi diversas vezes reformada no século 19 e a sua fachada atual foi construída em 1881.

 

Por uma dessas coincidências que só acontecem em São Paulo, a igreja fica às portas do bairro da Liberdade, onde desde 1910 foram se instalando os primeiros imigrantes japoneses que chegaram à cidade. A rua que, em primeiro lugar, foi reduto desses imigrantes foi a Rua Conde Sarzedas, que fica a poucos metros da igreja. E como o santo morreu como mártir no Japão, em 1966 o cardeal Agnelo Rossi transformou a igreja em paróquia destinada aos japoneses.

 

Embora os atuais habitantes da Liberdade sejam em sua maioria netos ou bisnetos dos japoneses que ocuparam o bairro ao longo do século 20, até hoje em todos os domingos uma missa é rezada em japonês, para os membros da comunidade que ainda compreendem a língua. São coisas que só existem em São Paulo!

 

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A Cinelândia Paulistana

São João e Ipiranga reuniam os melhores cinemas da cidade.

 

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Ir ao cinema sempre foi um dos programas favoritos dos paulistanos. À noite e principalmente nos fins de semana, viviam cheios e as filas nas portas eram comuns. E as melhores salas ficavam na região que ficou conhecida, nos anos 50, por Cinelândia e que tinha como eixos as avenidas Ipiranga e São João. Quase nenhum deles conseguiu sobreviver às mudanças na cidade e dos hábitos dos seus moradores. Mas a grande maioria dos espaços ainda está lá, vazios ou transformados em igrejas ou estacionamentos.

 

O cine Metro, um dos mais bonitos, foi inaugurado nos anos 30 e pertencia a Metro Goldwin Meyer. Era todo decorado num estilo entre mourisco e hollywoodiano, e nos anos 60, era famoso pelas matinês de domingo, com desenhos do Tom e Jerry que atraiam nuvens de crianças tomando conta das calçadas nos fins de semana de sol. Foi reformado nos anos 80 e perdeu a decoração espetacular que possuía. Em decadência, virou igreja.

 

Um pouco adiante, na avenida São João, ficava outra grande atração para a garotada dos anos 60 e 70. O Comodoro, único cinema da cidade com Cinerama, a coisa mais próxima da terceira dimensão que se podia obter naquela época. Durante anos exibiu sempre o mesmo filme: “As 7 Maravilhas do Mundo”. As multidões que lotavam o cinema, ano após ano, queriam mesmo é conhecer a maravilha do Cinerama. O filme podia ser sempre o mesmo porque ninguém se importava. Nos anos 70 foi reformado e recebeu um sistema de som moderníssimo chamado de Surround, que fazia as poltronas e o público tremerem. O filme de estreia do novo sistema não poderia ser outro! Era “Terremoto”, com Charlton Heston e grande elenco.

 

Em frente ao Cinerama ficava o cinema mais estranho da cidade e que durou relativamente pouco tempo. Era o Cinespacial que tinha uma plateia circular com três telas no centro, cada uma voltada para um setor da plateia. Não alterava em nada a projeção do filme, mas ir a uma com 3 telas parecia avançadíssimo e não houve fã de cinema que não tivesse ido experimentar.

 

Mas talvez o mais querido do Centro paulistano tenha sido o menor deles. Ficava na Praça Roosevelt e era com certeza o menor de São Paulo. Não comportava mais de 100 espectadores, mas lá eram exibidos os filmes mais cults da cidade. Era o Cine Bijou. Não houve estudante ou amante de cinema dos anos 60 e 70 que não o frequentasse. Lá se podia ver continuamente os filmes na “Nouvelle Vague” francesa, Godard, Resnais, Truffaut, além de filmes de arte poloneses, tchecos, italianos etc. Provavelmente nunca exibiu um filme americano, mas ninguém reclamava. Quem ia lá queria ver o que se fazia de mais moderno e revolucionário. Era o auge da ditadura e o Bijou era uma brecha de luz num tempo de escuridão.

 

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O Saci

De gorro vermelho e uma perna só, há cem anos ele se exibiu na Rua Líbero Badaró.

 

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Há muito tempo que São Paulo é cidade grande. Mesmo quando ainda era pequena para os nossos padrões atuais. A partir dos anos 1890 época em que a cidade começou a crescer de fato, é possível perceber nos jornais e nos livros desse tempo uma nostalgia da velha cidade, pequena e pacata, com grandes chácaras que ocupavam a área hoje central, as casas com amplos quintais, mangueiras enormes e um galinheiro no fundo. Havia uma nostalgia rural que os paulistanos “de raiz”, aqueles que não eram imigrantes, conheciam bem.

 

Monteiro Lobato, nascido em Taubaté e criado nas terras do avô, barão e dono de escravos, veio para São Paulo, depois de vender a fazenda herdada em 1916. Mas nunca perdeu a nostalgia da vida rural, que já era difícil de identificar na São Paulo que ele conheceu com quase 500 mil habitantes.

Incomodado talvez com a vida urbana e as notícias da guerra que assolava a Europa, Lobato iniciou uma cruzada. Ele nos conta como começou:

 

“Um sujeitinho bilioso, recém-chegado da selva do Buquira – o próprio Lobato, naturalmente – passeando com um amigo no Jardim da Luz parou diante dos anões de gorra, barbudos, trajados à alemã que lá quebram a monotonia do relvado. E disse filosoficamente - Como berra essa nota nibelúngica neste pastinho de grama. Queria que estivesse aqui um saci, um curupira, um papagaio, um tico-tico.”

 

Em 1917, Lobato deu iniciou ao Inquérito do Saci, lançado na edição vespertina do jornal O Estado de S. Paulo e que imediatamente tomou conta da cidade. Recolheu dezenas de depoimentos e imagens com as quais fez uma exposição na Rua Libero Badaró, 111. Até Anita Malfatti pintou um Saci. No ano seguinte publicou em livro “O Inquérito do Sacy” com os resultados da pesquisa. Para financiar a edição, o desenhista Voltolino, o mais famoso na época, desenhou diversos anúncios publicitários – de máquinas de escrever Remington à chocolates Lacta - tendo o Saci como personagem. O livro foi o primeiro que Lobato publicou.

 

Passados 100 anos, um grupo de abnegados defensores da nossa memória cultural, organizou uma exposição que comemora o centenário dessa empreitada. Não é em São Paulo, mas é aqui pertinho, em Barueri. Lá quem quiser pode ver a exposição “O Inquérito do Saci 2018”, no Museu Municipal da cidade, que lembra o centenário dessa iniciativa de Lobato e que foi um dos marcos iniciais da Semana de Arte Moderna de 22.

 

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As Lojas na Cidade

As ruas do Centro concentravam o comércio para a elite e a classe média.

 

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Antes de se mudar para os shoppings centers o comércio da cidade se concentrava no Centro. Era lá que estavam as lojas finas e os estabelecimentos populares, num corredor que ia da Praça da Sé até o Largo do Arouche. Quem percorresse o eixo de ruas que se enfileiravam quase retas, Direita, Barão de Itapetininga, do Arouche e suas transversais, entremeadas pelas Praças do Patriarca, da República e Largo do Arouche, podia seguir de loja em loja, quase sem intervalo. Eram grandes e pequenas, de elite ou populares e vendiam de tudo, dos artigos de luxo até os que custavam poucos centavos.

 

Lá ficavam as grandes lojas de departamentos, Mappin, em frente ao Municipal, Mesbla e Isnard, na 24 de Maio, Ao Preço Fixo, Americanas e Slopper, na rua Direita. São Nicolau na Praça do Patriarca. As melhores lojas ficavam na rua Barão de Itapetininga, onde a elite e a classe média faziam suas compras. Para as roupas masculinas mais populares, Lojas Garbo e Ducal, que tinha esse nome porque vendia ternos masculinos com duas calças, DUCAL. Para a moda íntima feminina, na Praça do Patriarca as Lojas Cisne e Etan. Mas também não faltavam as confeitarias e docerias. Kopenhagem na Libero Badaró, a Leiteria Americana para os artistas e o público do Theatro Municipal, a Vienense para o chá das cinco. Para as crianças havia a Petistil, na Barão de Itapetininga e as Casas Eduardo, onde meninos e meninas ganhavam sapatos novos a cada início de semestre escolar.

 

Praticamente todas essas lojas desapareceram com as mudanças havidas na cidade. Mas uma loja permanece até hoje, no mesmo lugar, desde 1928. É “A Fidalga”, uma loja de calçados que ocupa o mesmo prédio na rua Quintino Bocaíuva desde a sua fundação. Ela mantém as vitrines e prateleiras altas, de madeira escura, dos anos 20. Por motivos que não se podem explicar, apesar das profundas transformações no seu entorno, permanece no mesmo lugar, vendendo os mesmos produtos, há noventa anos.

 

É um mistério, numa cidade onde tudo muda sem parar.

 

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O Trem das Onze

Quem morava no Jaçanã não podia perder o último trem!

 

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Adoniram Barbosa imortalizou o trem das onze que ia para o Jaçanã e embora a música esteja nítida na memória de qualquer paulistano, são poucos os que se lembram hoje da velha ferrovia da Cantareira.

 

No final do século 19, com o grande crescimento da cidade, o problema do abastecimento de água para uma população que chegou a crescer 14% ao ano, foi se tornando cada vez mais urgente. Desde 1863 o Governo Provincial vinha estudando uma alternativa para fornecer água para a cidade. Mas foi em 1893 que as obras do Reservatório da Cantareira finalmente se iniciaram. Para transportar operários e equipamentos  foi construído um ramal da São Paulo Railway que saia da estação do Pari em direção às obras do novo reservatório.

 

O trenzinho da Cantareira foi inaugurado em 1893 e já em 1895 foram iniciadas viagens turísticas aos sábados e domingos para que os paulistanos pudessem conhecer, de trem, as matas e a vista que se tinha da cidade no alto da Serra. Com o tempo as viagens se tornaram diárias e a estação inicial no Pari, considerada distante do Centro, foi transferida para a Rua 25 de Março. Em 1908 se construiu um ramal que ia até Guarulhos.

 

A linha se manteve até 1964 e as composições, com no máximo 3 ou 4 vagões e em geral movidas por velhas locomotivas a vapor, transportavam os moradores dos distantes bairros que se formavam na Zona Norte – Carandiru, Jaçanã, Tremembé - e que tinham o trenzinho como único meio de transporte. A linha seguia mais ou menos o mesmo traçado que a linha 1 do Metrô ocupa atualmente, passando pela atual Avenida Cruzeira do Sul, em direção as regiões altas do norte da cidade.

 

Com o crescimento da metrópole que atingiu rapidamente milhões de habitantes, o velho trenzinho foi se transformando em peça de museu em meio à cidade moderna e progressista. Em 1964, ano em que Adoniram compôs a canção famosa, a linha estava sendo desativada e provavelmente foi isso que inspirou o compositor.

Nessa época, o poeta Vinicius de Morais, disse que São Paulo era o túmulo do samba. Mas o Trem das Onze de Adoniram foi o campeão do carnaval carioca do Quarto Centenário da cidade do Rio de Janeiro. São Paulo, é claro, nunca foi páreo para a música do Rio, mas Adoniram fez o apito do trem das onze ser ouvido no Carnaval da cidade.

 

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O Theatro Colombo

O compositor Pietro Mascagni e o tenor Beniamino Gigli se apresentaram no Brás.

 

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A vida cultural de São Paulo sempre foi intensa. Ou melhor, desde o final do século 19, quando a cidade cresceu e dezenas de milhares de imigrantes de todos os cantos do mundo se instalaram por aqui, a atividade cultural floresceu e nos palcos dos seus inúmeros teatros, as maiores estrelas do mundo se apresentaram.

Nos anos 10 e 20 São Paulo já era um centro importante e reconhecido que atraia espetáculos vindos diretamente da Europa ou que faziam antes escala em Nova York. O centro dessa grande agitação era o Theatro Municipal que a partir de 1911 acolhia a elite paulistana.

 

Mas além da elite, a cidade que rapidamente caminhava para atingir 500 mil habitantes e era, portanto, uma metrópole, abrigava uma multidão de aficcionados pela música, pelo teatro e pela dança, que não podiam pagar os preços elevados do Municipal. Para estes havia uma infinidade de casas de espetáculos, pequenas e grandes que se espalhavam pelo Centro e por alguns bairros de São Paulo. São representantes dessa época o Theatro São Pedro, o único ainda em atividade, o Oberdã no Brás, o Sant’Ana na rua Boa vista, o São José onde hoje está o Shopping Light e muitos outros.

 

Mas o mais importante deles, sem dúvida, foi o Theatro Colombo, no Largo da Concórdia. Era um enorme edifício, com 2.000 lugares na plateia e durante muito tempo foi o centro cultural dos italianos que viviam no Brás e adoravam ópera. Inaugurado em 1908, logo se transformou numa espécie de Municipal mais popular e mais barato. Sua acústica, considerada melhor que a do irmão rico, ajudava a atrair os melhores artistas em temporadas populares. Seu grande momento coincidiu com a inauguração do Municipal. A companha de Pietro Mascagni, que veio para a inauguração e aguardava a obra ficar pronta, estreou no Colombo, uma ópera inédita por aqui, regida pelo próprio compositor. Para marcar o acontecimento foi até afixada na entrada uma placa comemorativa.

 

O Theatro Colombo viveu muitos outros dias de glória e até Beniamino Gigli se apresentou ali várias vezes. Diz a lenda, que após os espetáculos o tenor ia comer pizza na Cantina Castelões que ainda existe na rua do Gasômetro, e lá cantava junto com os clientes e garçons.

 

Como muitos outros locais de São Paulo, o teatro entrou em decadência junto com o seu entorno e pegou fogo em 1966. No seu lugar existe hoje um viaduto, e a música, que por tantos anos foi característica daquele trecho da cidade, só sobrevive na história.

 

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Niemeyer em São Paulo

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O arquiteto de Brasília não projetou em São Paulo apenas o Parque do Ibirapuera

 

Oscar Niemeyer ficou muito conhecido em São Paulo por duas grandes obras, o Parque do Ibirapuera e o edifício Copan, projetado originalmente por ele e concluído por Carlos Lemos. Mas essas não são as suas únicas obras na cidade.

 

Nos anos 50, quando o arquiteto já era muito conhecido principalmente pelo conjunto da Pampulha em Belo Horizonte, e São Paulo crescia vertiginosamente, ele recebeu diversas encomendas na cidade que queria parecer cada vez mais moderna. São dessa época o edifício Montreal, na esquina da avenida Casper Líbero com Ipiranga, o Eiffel, na praça da República, a galeria Califórnia, na rua Barão de Itapetininga e o Triângulo, na José Bonifácio.

 

O Triângulo é um pequeno prédio que passa quase despercebido num quarteirão triangular formado pelas ruas Direita, José Bonifácio e Quintino Bocaiúva, bem no centro da cidade e a poucos metros da praça da Sé. Concebido para ser um arranha céu em estilo nova-iorquino, o projeto acabou sofrendo muito com as imposições dos construtores e as normas de municipais daquele tempo. Além do que, o terreno, muito pequeno num entorno intensamente edificado, tornava o edifício de dezoito andares quase invisível.

 

Como estava localizado na área mais densa e cara da cidade, todo o térreo foi transformado em espaço comercial para a instalação de lojas. Para aproveitar cada metro da fachada, a entrada do prédio foi reduzida e estreitada ao máximo. Provavelmente é o único prédio da Capital com uma entrada formada pelos degraus de uma pequena escada, que dá acesso ao hall de elevadores situado no subsolo. Talvez para atenuar o efeito terrível dessa entrada estranha, se decidiu colocar ali um grande painel de pastilhas de autoria de Di Cavalcanti. É um dos mais bonitos que o artista deixou para a cidade, mas é difícil perceber a sua existência, porque ele ocupa a entrada em curva e só pode ser visto descendo-se os degraus que dão acesso ao prédio.

 

Hoje o edifício, a entrada e o painel de Di Cavalcanti estão tombados. Mas foram muito danificados pelas décadas de esquecimento, numa área que deixou de ser a mais importante e dinâmica de uma cidade que se considerava “a que mais cresce no mundo”.

 

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