Lembranças de São Paulo

Crônicas sobre a cidade de São Paulo

por José Roberto Walker

Cultura FM 103,3, às quartas-feiras: às 9h e 18h 

Rua dos Estudantes

1º - Rua dos Estudantes - Lembranças de São Paulo
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São Paulo é uma cidade estranha, que guarda o seu passado sempre escondido. Embora já tenha mais de 460 anos, a sua história não está à vista de todos e é preciso procurá-la. Até os nomes das velhas ruas quase desapareceram e são poucos os exemplos que nos lembram a cidade antiga.

A rua dos Estudantes é uma dessas. Hoje quase desconhecida, ela sai da Praça da Liberdade e vai até o Glicério. Antigamente, descendo a colina, logo se encontrava o Largo da Glória. No século 18, lá ficava a Chácara dos Ingleses, que pertenceu ao comerciante inglês John Rademaker – daí o nome.

Dominava a propriedade um sobradão colonial onde, época da Independência, morava uma beldade paulistana chamada Domitila. Dizem as lendas da cidade que foi naquele casarão que o jovem e impetuoso Príncipe D. Pedro a conheceu. Ele logo se apaixonou e mais tarde a transformou em Marquesa de Santos.

Quando a Faculdade de Direito de São Paulo foi criada em 1827, dezenas de estudantes, vindos de todo o império ocuparam a pequena vila e acabaram impondo a ela a marca da sua presença.

Depois que Domitila se tornou Marquesa e se mudou para um palacete na Rua do Carmo, o velho casarão serviu à Santa Casa e mais tarde transformou-se em república de estudantes.

Foi nela que moraram Álvares de Azevedo, o maior poeta acadêmico, e o romancista Bernardo Guimarães. Foi naquele velho casarão, meio fantasmagórico, que Alvares de Azevedo escreveu a maior parte da sua obra.

A chácara e o cemitério desapareceram ainda no século 19, invadidos pela cidade que crescia, mas durante muitas décadas, essa área foi dominada pelos estudantes da Academia de São Paulo, que se fixaram por ali, ocupando as poucas casas disponíveis na cidade.

É em memória desse tempo remoto que aquela rua ainda se chama Rua dos Estudantes, guardando a lembrança das repúblicas que durante muitos anos os abrigaram, no que era então, um arrabalde da cidade.